domingo, 25 de julho de 2010

paz das pedras

a chuva desfez a goma da lua
e agora chove branco nesta parte do mundo.
claro também é o silêncio apenas cortado ao meio por um grilo

e este domingo

e este longo domingo
de livros abertos e largados
porque o domingo é por si só
um texto que me inteiramente ocupa
quando me distraio
da solene paz
das pedras
mesmo
sob
a

c
h
u
v
a

Imagem bonita: Pedras no surf

terça-feira, 20 de julho de 2010

uma palavra sem lar

ando buscando uma palavra
com um mínimo de barulho
que tenha um som
menos que arrulho


menos, menos
que os amenos
dos acenos
infantis

ando buscando uma palavra
só aroma
uma palavra que se toque e seja
ar, goma

uma palavra abandonada
que ainda não sabe falar

uma palavra que seja duas em cada

uma palavra sem lar
uma palavra de água



e para encontrar
sei,  preciso 

silêncio e ar
silenciar...

domingo, 18 de julho de 2010

era em azul














era em azul o lago
eram em azul as árvores
era em azul o tempo
era em azul o silêncio

era em azul depois a voz longínqua e perto
em azul era a grande solidão do mundo
em azul era minha presença sem corpo

era em azul

em azul acabado de nascer
era um azul como só pode ser o verdadeiro azul
era um azul sonorizado pela vastidão
era o azul de nenhum pintor

era um azul que por falta de outro nome
chamo de azul

era um azul respirante mas sem dor

era um azul que nunca verás...
nem eu acordada
a cor dada

quinta-feira, 15 de julho de 2010

ganhando a madrugada

Quem perde o sono ganha alguma coisa. No mínimo, a madrugada, essa companhia incorpórea e não mais angustiante como o foi de outras vezes. Devo ter aprendido o amor fati da contingência: amar a ocasional impossibilidade de adormecer como devia e queria.

E já que não consigo achar o sono, aproveito prazerosamente o quase frio da hora ainda escura, depois de tanto verão afogueado. 
Cantam grilos perto e um galo ao longe. Até parece que estou em Nova Palmeira... Lá, tarde da noite, às vezes se ouvia alguém assoviando uma canção qualquer, e o assovio ia se  d i s t a n c i a  n   d   o...  até não se escutar mais. Um dia explicaram: quem assovia assim fora de hora está com medo... O assovio serve para disfarçar.  -Então quando o assovio pára é porque a pessoa chegou em casa?...

Não sei o que responderam, mas penso agora nos medos sem assovio, sem poesia. Nesses medos urbanos. Homens com medo de outros homens.

No vilarejo o medo parecia ser medo de alma. Medo de visagem nas travessias.


E já que acontinuo sem achar o sono, vou esperar aquele azul magnífico que antecede o nascer do sol.
E dizem que é bom ver o dia amanhecer, pelo menos uma vez ao ano.

terça-feira, 13 de julho de 2010

esse formidável amor

em tempos de reencenação de crimes nas TVs,  quando o sangue piche da violência é repetidas vezes derramado na tela  para que o vejam adultos, jovens e crianças,  faz bem ver algo que evoque as sutilezas do amor, por lugares incertos deste planeta.

faz algum tempo, vi, também pela TV, uma bióloga numa gruta fazendo maternagem a filhotes de morcegos que estavam sem mãe, sabe-se lá por quê. Não me lembro.

hoje, vi no canal History: a egiptóloga tratava com tal encantamento o seu obejto de estudo que ele já não era um objeto de estudo mas um objeto de amor. "Esplêndido", "maravilha", dizia enquanto deslocava cuidadosamente a lupa para lá e para cá, examinando detalhes, descobrindo sentidos, adivinhando razões para isto e para aquilo. Gestos não puramenre técnicos, mas amorosos, de respeito pelo passado do "objeto", retirado dos solos fundos do tempo para um retorno à claridade.

será um amor vão, em ambos os casos? Melhor seria dá-lo a crianças abandonadas?...

Mas o Amor ama tudo. Há corações para todos os amores.


Para os morcegos e para o que, um dia, foi um ser humano, amou e foi amado. Se não foi, está sendo agora.
Sim, a múmia da egiptóloga...

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Walter Benjamin para começar a semana

"Ser feliz significa poder tomar consciência de si mesmo sem susto."

"O olhar é o fundo do copo do ser humano."

CRAVINA- Para quem ama, o ser amado aparece sempre como solitário."

"MIOSÓTIS- A recordação vê o ser amado sempre em miniatura."

______
In: Obras Escolhidas III-Rua de Mão Única.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

gole de chuva












um gole de chuva
e verga
o tempo interior
sempre inconcluído

umas frases cegas
tateiam-me as mãos
saltam como
rãs incendiadas
desmentindo o inverno

*
o tempo branco
-parece
casou-se com a noite passada
ela se foi e ele agora as-
sina um poema líquido

esse
da chuva fina

que leveza e gradações
ensina?

domingo, 4 de julho de 2010

para não dizer que nada aprendi com o futebol

Um comentarista de futebol falou algo assim na TV: a equipe do Paraguai não constroi o jogo, vai, vai, vai no improviso, ao sabor do acaso, vai no risco, vai com força, é perigosa.
E as equipes que jogam segundo uma técnica apurada, que constroem o jogo?
Estas também perdem. Caso do Brasil.

Não será na vida assim também?...



...mas há a 'existência'. Viver é mais rotineiro. Atendem-se as demandas do corpo, desenham-se projetos para o futuro, desenvolvem-se estratégias para chegar lá, consome-se.

Existir pede mais.
Ou pede diferente.
Ou pede menos.
Pede a suspensão (eventual que seja) das regras. Pede o risco, o improviso, o aqui-e-agora, pede também o alheamento, aquele estar-sem-pensamento, o temido vazio.
Pede  não esperar, não contar-com.
Pede não-pedir.


Ao fim e ao cabo, nada se perde, nada se ganha, apenas se vive. Ou se existencia quando possível...

sexta-feira, 2 de julho de 2010

bruxo de si mesmo

a dor
esse vento escuro parado
no fundo
do abismo

                          urge ser
                          bruxo de si mesmo


inverter o abismo

dançar chorando
ao redor
desse vento morto
até que ele se co-
mova
até que aceite
e-
levar
a dor

deitá-la
aos vales
do universo
                          e esperar
                          que nasça
                          outra  a-ventura
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