quinta-feira, 15 de julho de 2010

ganhando a madrugada

Quem perde o sono ganha alguma coisa. No mínimo, a madrugada, essa companhia incorpórea e não mais angustiante como o foi de outras vezes. Devo ter aprendido o amor fati da contingência: amar a ocasional impossibilidade de adormecer como devia e queria.

E já que não consigo achar o sono, aproveito prazerosamente o quase frio da hora ainda escura, depois de tanto verão afogueado. 
Cantam grilos perto e um galo ao longe. Até parece que estou em Nova Palmeira... Lá, tarde da noite, às vezes se ouvia alguém assoviando uma canção qualquer, e o assovio ia se  d i s t a n c i a  n   d   o...  até não se escutar mais. Um dia explicaram: quem assovia assim fora de hora está com medo... O assovio serve para disfarçar.  -Então quando o assovio pára é porque a pessoa chegou em casa?...

Não sei o que responderam, mas penso agora nos medos sem assovio, sem poesia. Nesses medos urbanos. Homens com medo de outros homens.

No vilarejo o medo parecia ser medo de alma. Medo de visagem nas travessias.


E já que acontinuo sem achar o sono, vou esperar aquele azul magnífico que antecede o nascer do sol.
E dizem que é bom ver o dia amanhecer, pelo menos uma vez ao ano.

10 comentários:

  1. querida Nivaldete, como é bom libertar-se a gente da angustia de querer o que deve e se alegrar com o que é dado! :)
    que estranho ritmo de vida levamos que vemos quase todos os entardeceres e tão poucos amanheceres? os antigos egipcíos, que amavam o Sol, viam-no sempre nascer e não gostavam de o ver morrer...
    um grande ((abraço))

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  2. Fear of the dark?!... :D

    À noite os pensamentos dos que dormem, dormem com eles, ao passo que os meus aí é que acordam. E lhes sobra espaço, bem mais espaço. E, sente em mim, à noite, é que eu desperto. Aí o pensamento é mais agudo e amplo e o olhar mais vasto naquilo que é capaz de contemplar e o coração mais livre.

    :)

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  3. Almariada, é, sim, libertador pacificar-se com o inelutável.
    E esse não-assistir à Natureza, principalmente ao amanhecer..., como empobrece nossas experiências!Os egípcios estavam certos...
    Grande abraço, querida!

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  4. Francisco,
    Medo do Escuro, sim, os que assoviavam na noite o tinham.

    "...E, sente em mim,à noite é que eu desperto.
    Aí o pensamento é mais agudo e amplo
    e o olhar mais vasto
    naquilo que é capaz de contemplar
    e o coração mais livre."

    Um poema!

    Obrigada.

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  5. Interessante, Nivaldete, há poucos dias discutia com alguém sobre o verdadeiro sentido do Medo. Pensei até em escrever sobre isso, sobre os medos todos que apareceram na conversa e que foram, pontualmente, sendo justificados ou abandonados por não serem mesmo medos dignos de medo. Mas sobrou o Medo ele mesmo, o que vem com dedo em riste fazer o coração disparar ou parar de vez. E dele não consegui ver a cara e nem consegui dar-lhe nome, mas entendi que deve ser enfrentado com a alma leve, para que ele tenha medo de invadir o espaço onde Medo tem medo de medo.
    Bjos

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  6. AMORCEGAÇÃO

    para Nivaldete

    insônia

    vigilante

    do meu amor
    cego

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  7. Tanta coisa há na madrugada que se soubéssemos a importância talvez não adormecéssemos.
    Ah, os meus medos mando-os todos para o poema.
    Exorcizo-os dessa forma.
    Uma grande madrugada pra você, cara amiga.

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  8. Paulo,
    poetas são mesmo alquimistas
    e que a madrugada seja FonteMontePonte
    para você, quando for o caso.
    Um abraço, amigo.

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  9. Anônimo...,

    então ganhei mais que a madrugada!

    Sensibilizada.
    E sem mais palavras
    para não macular as suas.

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  10. Maria Teresa, que beleza de texto! Vale por um post... Você acabou escrevendo-o aqui.
    Verdade que o medo ajuda a sobreviver, até gera poemas e outras artes. O perigo é quando impede a experiência do existir...
    Grande abraço!

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