domingo, 29 de agosto de 2010

pela claridade

Pela claridade
estou pela claridade

essa é a minha festa
e qualquer pano serve
qualquer flor dissolve qualquer bijuteria
dispensados castiçais e vinho

bebo na vasilha das mãos 
água
essa água
que faz na garganta 
um primitivo som,

o do primeiro gole
na primeira sede
no primeiro sol
no primeiro trepidar
sobre o mundo

no primeiro g-rito
no primeiro estalo da primeira dor
no primeiro fogo que acendeu meus pés
no primeiro deserto que me lavou das multidões
no primeiro erro mastigado na saliva do "por quê?"
na primeira acetona sobre o corte do primeiro engano
no primeiro e permanente não-saber
na primeira santidade que a ternura deu

Pela claridade
estou pela claridade

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

fogo sem dono



e pois, meu amor, 


a vida é esse fogo sem dono

terça-feira, 17 de agosto de 2010

os remédios do escuro

os remédios do escuro
encontro
no lume da lamparina
que a vó acendia
pra contar histórias

ela sempre sorria depois de imitar a voz de um rei mau e eu não entendia aquele pouco caso e até achava que a vó fosse muito amiga do rei mau, talvez até namorada, porque rindo ela perdoava, e eu não entendia que ela só falava: é tudo arte da fantasia...

era uma vez a vó
era uma vez a lamparina
mas é sempre essa pro-cura:
apagar
soprar os medos
beijando a tisna
que eles deixam
-sua assinatura

que livre não é 
quem nunca teve medo,
o perigo é nunca
deslamparinar
o velho assombro
ou ele fica
no lugar da luz
aceso







conte mais, vó













Imagem: http://www.programamomentoscomjesus.com/Reflex_tex1/Reflex%C3%B5es/a_lamparina.htm

domingo, 15 de agosto de 2010

A terra sabe

 



A Terra sabe a diferença

entre uma mina que se enterra nela


e os passos de uma criança


clique aqui

terça-feira, 10 de agosto de 2010

toda uma casa se contorce






Toda uma casa se contorce
canta, dança
beija a rua
sorri, se desmagoa
cria cetim nas paredes

vira barco se preciso
ou põe asas à janela
cambalhota, silencia

se não há, inventa vento
diz ao telhado: assovia!
em três partes cresce um terço
quando entra nela



um berço...


seja de vime ou madeira
seja rede ou puro (a)braço.





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Imagem: http://aimagemdapaisagem.nireblog.com/post/2009/05/29/271-andorinhas-no-ninho

domingo, 1 de agosto de 2010

...porque não sou mar

 

 O que murmura o mar tão continuamente?


ao esgotar-se
a onda apenas cospe
uma primeira sílaba
e as próximas jamais
completarão qualquer palavra


escrevo porque não sou mar

muito menos montanha


tenho o defeito da escrita
que não consegue ser água
funda nem altura,
só rasura

escrevo porque sou frágil,
frásil

Praia de Búzio-RN


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