segunda-feira, 29 de novembro de 2010

a linguagem é



a linguagem não pertence a ninguém
a linguagem é

a linguagem é um ente
que invocamos quando estamos doentes do mundo

os que estão curados silenciam

os que gritam estão rasgados por dentro

escrevemos porque sofremos do descompleto,
da falha, de insondáveis inanições

escrevemos porque queremos soletrar Deus
e Deus não tem nome

("Deus" é um apelido para o que não compreendemos)


escrevemos porque não estamos vazios
mas cheios de implosões
detritos

estar vazio é a grande graça:
não há mãos para fuzis nem aneis nem agarro de moedas
nem boca para palavras de areia

estar vazio é estar garça
e o lago não é logo ali.

10 comentários:

  1. Nivaldete:
    O sentido do escrever, você entendeu-o todo. E delineou-o lindamente aqui.
    Estava saudosa dessas suas palavras que semprem preenchem.
    Beijos

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  2. Belo. Então o ideal de escrever é pôr pra fora esses detritos, desocupando o espaço natural do silêncio?

    Abraço.

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  3. Caramba, isso é que eu chamo de metalinguagem poética! Ou qualquer coisa assim que a gente lê e fica sem querer fazer mais nada durante todo o dia (risos). Cheio de vazios e de palavras que são.

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  4. Querida Maria Teresa, que bom esse retorno! As miudezas urgentes da vida às vezes nos tiram o tempo necessário para um poema. Mas ele insiste, e até nos pega desprevenidos... estou cheia de detritos... Beijos. Obrigada pela fidelidade.

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  5. Querida Mme. S., você sempre me comovendo..., fico encolhida com tão boas palavras... (avistei você no Flipipa, mas voltei naquela noite e não pude dar-lhe um abraço; vai um daqui, bem grande!). Beijos.

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  6. Caríssimo Marcantonio, que bom encontrá-lo de novo por aqui...
    É, acho que criamos -pelo menos TAMBÉM- porque há esses resíduos em nós: impressões, sustos, faltas, recolha de coisas do mundo e necessidade de deitá-las fora. Se podemos fazê-lo de forma estética, tanto melhor. Quando há um grande aquietamento interior, então é tempo de silêncio..., embora este também aconteça por outras contingências.
    Em todo caso, sua indagação me instiga a retomar o tema.

    Obrigada! Um grande abraço.

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  7. Linguagem não é somente fala; astro não tem voz mas (re)bola, migra, brilha. E esse texto me pegou, porque pra onde me viro há linguagem, hoje parte de mim. Muito bonito, Nivalde-te.

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  8. Nivaldete, estou digerindo o poema aos poucos como uma jibóia "degusta" a sua presa. Concordo que a linguagem não tem dono. Ela resolve-se por si mesma. Também a associação que você faz da linguagem com Deus é divina. Grande poema. Parabéns.

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  9. Obrigada, Paulo. Muito forte a analogia que você fez -jiboia/leitor/presa/poema... Deve ser assim, às vezes. Até com o próprio poeta, se ele não 'se livra' do poema logo após consumá-lo.
    Um grande abraço.

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  10. Bem "ajuntado" a sua poetica. Interessante. Estou aqui lhe convidando a visitar o meu blog e se possivel seguirmos juntos por eles. Estarei grato esperando por vc, lá
    Abraços de verdade

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