segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Natal na passarela



sentindo um certo vazio melancólico, saiu discretamente da sala em que parentes bebiam, trocavam presentes e risadas, despejou na pia a segunda dose de uísque 12 anos, desarrumou o cabelo lambido de gel, arrancou a roupa de marca, vestiu uma camiseta velha, branca e bem passada, olhou a torta de bacalhau sobre a mesa da cozinha, os salgadinhos, o remédio para azia e dor de cabeça -que o pai  certamente tomaria às 10 da manhã-, quis levar a torta, mas achou dispensável -a quem a daria?-, quis se vestir de papai noel, palhaço ou bicho e também desistiu -para quem iria assim se mostrar?-, pensou em comprar a algum camelô solitário todo o seu estoque de presentinhos made in china para dar a quem lhe parecesse necessitado, e de novo abriu mão de mais uma ideia, que não fazia questão de encontrar ninguém, talvez nem a si próprio.
Enfim, saiu de mansinho pela porta de serviço e ganhou a rua. Foi andando, andando, e três quarteirões depois percebeu que trazia a sacola com os presente que ganhara, então abandonou-a num banco de praça e continuou andando.  Subiu na primeira passarela e, não havendo qualquer transeunte além dele, parou para contemplar a cidade, que estava se acalmando como um animal que começa a recolher seus barulhos e seus botões de luz corrente. Depois olhou o céu, a lua cheia, os tufos de nuvens lembrando o algodão-doce da infância. Deitou-se na passarela com as mãos cruzadas sob a cabeça e continuou mirando a lua, as nuvens, e foi ficando agradavelmente tonto. Em casa, pensou, se estivessem todos bêbados ninguém notaria sua ausência. Se notassem, iriam ao seu quarto e veriam o cobertor sobre os travesseiros e pensariam que ele estava dormindo. Claro, no dia seguinte o chamariam de descortês. Mas, pela primeira vez, tinha sido gentil com seu espírito.

adormeceu e acordou com o sol no rosto.
e viu: um papai noel de papelão, trazido pelo vento, e que devia ter passado a noite lhe fazendo companhia, acabava de sair voando pelo gradil da passarela.

um menino, desses chamados 'de rua', medalhas de sujo pelo peito, apareceu, rasgou o pão que trazia e lhe ofereceu dizendo come, que é bom.

8 comentários:

  1. Nivaldete:
    Nessa passarela estamos todos, ávidos pela companhia bondosa, ávidos por chegarmos ao outro lado enxergando bocas sorridentes de cá e de lá!
    Desejo-lhe um 2011 em que se sinta cotidianamente gentil com seu espírito sensível de poeta.
    Beijo carinhoso

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  2. Pensando bem, diante das máscaras, natal é carnaval. Mas me lembrou Carlitos, como diz a canção equilibrista. Bjs

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  3. Maria Teresa, devagar estou voltando... Obrigada pelas sempre boas palavras. Um beijo amigo.

    Borges, obrigada também pela visita. Um beijo pra ti!

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  4. boa parte do espírito de todos nós passeou e descansou por sobre essa passarela. belo texto!
    beijos, S.

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  5. O estilo faz a escritora.
    Excelente esse roteiro curta-metragem poético.
    Só faltou um romance como no filme "Os Amantes da Pont Neuf".
    Parabéns, amiga, e muita literatura para nós (nozes) em 2011.
    Abraço grande.

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  6. Para nós/nozes!... Gostei, Paulo Jorge. Sim, que venha muita literatura porque, com ela,a gente melhor atura as coisas da dita 'realidade', Obrigada. Um abraço.

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  7. Minha querida,
    Obrigada pela visita. Vamos manter nossos sonhos e chamas acesas em 2011 por um país mais justo e igualitário nas oportunidades e nos direitos. Tudo de bom!

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