domingo, 4 de dezembro de 2011

domingo analfabeto

vão-se todas as filosofias


quero é este domingo analfabeto.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

como é voltar?

a gente só volta quando volta ou às vezes nunca foi embora
mesmo tendo se ausentado?

como é voltar?
basta re/aparecer?

eu estava aqui bem perto, sempre estive

apenas adormeci no barco

sou como os gatos.
 

quarta-feira, 16 de março de 2011

quando o leitor dilata o texto

Especialmente para Mme. S., pelo seu comentário a Tudo deslira (postagem abaixo)

É bom quando uma leitura dilata o "mim" dos textos e estes como que deixam de ser "nossos" e vão, trasmigram a um "ti" que se entrega à entrega. 

Agoniados entre a vontade de fazer um poema e as coisas prosaicas do cotidiano, do lado de cá tornamo-nos mais livres, mais sãos, mais despregados do egoico. Porque algo foi oferecido e acolhido, bem acolhido. Como uma canção que sai de nossa boca e continua em outra. Isto une, faz encontrar, ainda que as pessoas pouco, nunca ou quase nunca se vejam. As estradas, as pontes, as ruas, as veredas, as horas são outras. 

Esse em que ressoa a palavra oferecida tem, por isso mesmo, o dom do metal, e em nada é menor do que aquele que oferece o seu canto.

Devia ser o destino dos escritos -expandir, pela abertura e recepção, o que em nós é humanidade ou busca de. 
Sem isso é a perda da graça.

segunda-feira, 14 de março de 2011

tudo deslira

um lírio
para tanto delírio

a natureza del
ira

tudo deslira


e ainda não houve tempo de sermos
menos que amáveis: ao menos quase
gentis




resta ruminar
Rumi:

O mar é uma coisa,
A espuma, outra;
Esquece a espuma e contempla o mar noite e dia.
Tu olhas para a ondulação da espuma e não para o poderoso mar.
Como barcos, somos jogados daqui para ali,
Somos cegos, embora estejamos no brilhante oceano.
Ah! Tu que dormes no barco do corpo,
Tu vês a água, contempla a Água das águas!
Sob a água que tu vês há outra água que a move,
Dentro do espírito há um espírito que o chama!

sábado, 12 de março de 2011

de repente se passa um café


e lá vinha o filho cheio de dor,  dor de amor, barba crescida, a camisa rasgada bem no peito.
-me deixa, filho, costurar essa camisa...
-não adianta, mãe..., é o coração que está rasgado.
-ah, esse rasgão..., eu vi...  o coração doído saiu por ele, eu vi. Passou por mim, voando, e se desfez no ar... já nasceu outro, bem novinho. 
-...
-...
-...
-vou passar um café pra nós... e mais cuidado com as camisas... não são muito baratas...
-mãe, você tá chorando?...
-não, não... foi uma gripe de repente... gripe é assim... de repente.
-passe o café então... de repente...
-sim... de repente se passa um café... 
e pensou: só a dor não passa de repente... mas passa...

domingo, 6 de março de 2011

A vez de outro autor-2

A NOITE/2

Eu adormeço às margens de uma mulher: eu adormeço às margens de um abismo.


Eduardo Galeano, in Mulheres.

quinta-feira, 3 de março de 2011

A vez de outro autor-1

O Lápis disse: quero repouso, mais repouso de você... Então por um tempo, e não sei a extensão desse tempo, postarei textos de outros autores. Quando a birra do Lápis passar, voltarei...

Começo com este texto:

"(...) Se eu falo, é menos para mim do que para o outro; falo para me dirigir ao outro, para me fazer compreender. A fala é aqui como que o traço de união. Mas para que o outro me compreenda, é preciso que a minha linguagem seja a sua - que ela dê precedência sobre mim, que seja tanto mais inteligível quanto ela é ainda por cima denominador comum. Os outros ensinaram-me a falar, deram-me a palavra mas, ao fazê-lo, talvez tenham asfixiado em mim uma voz original, fraca, e lenta a libertar-se. Dizer que a linguagem é o outro equivale a afirmar que estamos, desde a infância, aprisionados pela nossa submissão forçada às fórmulas acabadas da linguagem estabelecida. (...)
A comunicação mata a expressão. A salvação consiste numa espécie de reconversão; é preciso abjurar a linguagem, desabituarmo-nos da existência geometrizada pelo senso comum (...)."

Georges Gusdorf, in A palavra

domingo, 30 de janeiro de 2011

amores

há amores que nunca começam de verdade, por isso mesmo nunca se acabam.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

dá sempre um branco

  
as cores de tudo... e ainda me visto de vermelho...

mas dá sempre um branco

quando vejo você.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Você, não sei.


...às vezes vem de ser assim, ela disse: reparto-me entre esse nada querer, essa ultrapassagem das coisas do mundo, incluindo as pessoas em relação privada, e uma vontade de encontrar algo ou alguém que me faça dizer "ah, divino, enfim!", e considerar tolas as coisas que tenho feito e não feito, dito e não dito. E aí você passa rente à porta dessa vontade, passa muitas vezes, e sei que não será divino, não pode ser, que o divino, afinal, é puramente íntimo de cada um, não se soma, não se divide, é tão particular como uma febre.  Mas você passa, passa, me olha por janelas virtuais como quem quer avisar de algo, talvez dizer "levarei uma muda de roupa, uma frase de Clarice e um vinho", e eu esqueço o divino.  Clarice angula. Vinho faz bem ao coração. Você, não sei. Mas a noite será menos longa, já é alguma coisa. Melhor se perdermos o senso.
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