sábado, 17 de novembro de 2012

Pequenos agrados da Vida

Um sábado inteiro administrando pequenos serviços em casa e fazendo tarefas correlatas, sem tempo pra almoçar direito, indo e vindo... Ao fim da tarde, acabando de lavar o terraço, eis que percebo bem ali, num cantinho, vindo não sei de onde (o vento trouxe), um colarzinho lilás (ou é magenta?)... Olhei, peguei: era uma vagem seca de... amendoim talvez. E estava em forma de quase coração... Tomei como um agrado da Vida, um "receba, é muito simples, mas já que você viu é seu"... Fiquei sinceramente tocada por esse acontecimento ínfimo/máximo.

Acho que a toda hora a Vida oferece seus pequenos agrados, e assim, largando-os pelos cantos, sem embalagem, sem cupom de troca, sem marca.
O que fiz do meu?... Lancei para a eternidade, colocando-o num vaso pra virar adubo.
Não é assim que a Vida quer?... Transformação...? Obrigada, Vida, por me ensinar.

domingo, 11 de novembro de 2012

T T

Ela manda por e-mail textos curtos de pessoas que, de algum modo, escrevem com sangue
("escreve com sangue e verás que sangue é espírito" -impossível não trazer Nietzsche aqui). Sabe escolher, tem faro para essas escritas 'vermelhas', aquelas em que seus autores se mostram sem pudor, mostram as feridas, riem delas, se confessam arruinados naquele momento, quebram coisas na linguagem, se descabelam, choram e prosseguem com um riso irônico.
Se somos o que comemos, como dizem, Tetê ( T T) Bezerra é o que lê e as músicas que ouve. Aqui não há sectarismo: tanto um violonista sofisticado quanto um brega dor-de-cotovelo-deslavada. Pra ouvir alto, enquanto o gole de cerveja desce pela garganta. Doce boêmia, embora cerveja amargue -e não seria cerveja se não amargasse, ela diria. Porque sabe achar ditos circunstanciais adequados.

Sabendo o nosso gosto, grava CDs de Drummond dizendo poemas e nos dá como presente de aniversário, uma letrinha azul indicando do que se trata. "Gravei pra você, é seu, guarde, depois você ouve".
Seus agrados são assim: de quem conhece aquele/a que recebe o que recebe.
Delicadezas de T T, que ama cachorros e gatos. A sua gata Aninha tem também sobrenome: Bezerra. O cachorro Nino, que não tinha pelos, mas cabeleira arruivada, já foi...

Um tempão sem vê-la e é aquela mesma montanha de gente -grande e forte nos dois sentidos: no corpo e na forma de estar presente, de adivinhar a pessoa de cada pessoa e falar de coisas próprias do mundo de cada uma. E o corte e a mecha branca no cabelo lembram Susan Sontag. Digo sempre. Ou vez por outra, pois é vez por outra que a gente se acha, quase sempre nas comemorações familiares. Ainda bem.

T T esquiva-se de misturar amizade com política, por ex. Ou faz parte de sua política, já que política vem de polis, cidade, e a cidade é também o lugar 3x4 onde se está com outros, e é preciso saber estar; ela sabe. Sabe que encontrar amigos é semelhante a um devaneio, e devaneios não devem ser afugentados com discussões dessa ordem.

Ela se mostra quase surpresa porque damos retorno aos seus envios de textos: um comentário ligeiro e ela se sente tocada. Ora, T T, essas pequenas éticas são o mínimo que você merece, mas respondemos também porque igualmente nos toca termos sido lembrados.

Faça de conta que eu ainda tomo cerveja, T T. Então vai uma 'ceriveja' aí (na minha pronúncia lá de Nova Palmeira, nossa terra)?...
Tim-tim por você! Até mais depois.

P.S. Escrevi pra você, não guarde, nem precisa ler. Você sabe já isso tudo.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Um poema de Prisca Agustoni


"Por anos fui
maçã degolada na mesa,
                                     
bagaço quase maduro.

Avessa à filiação,
encarno a contradição dos camaleões
                                     
embora as raízes
me firam como farpas."


Fonte: http://www.germinaliteratura.com.br/prisca_agustoni.htm

sábado, 4 de agosto de 2012

Por artes da insônia

Pois o sono não veio. Em boa hora não veio, embora passe das 3 da manhã. Um lanche, uma água, uma andança pelo terraço, uma espiada na lua, belo botão de luz na saia sem fim da noite...
É, passou o tempo em que me afligia quando tinha insônia. O sono não veio e pronto. Às vezes quem esperamos também não vem, e muito do que deveria vir não vem, ou vem de outra forma e nem percebemos.
Há muito, por exemplo, não escrevo aqui. Então, em vez de contar intermináveis carneirinhos -receita talvez universal para chamar o sono-, decidi escrever sobre isso mesmo: a experiência da insônia que estou tendo. Ficar olhando o teto é que não vou, nem me esconder de mim mesma, cobrindo a cabeça.
Há sempre algo de melhor a fazer, nessas horas.
Resolvi escrever -já disse, mas pareceu pouco, e fui buscar no youtube a apresentação de Ivan Lins no Jô Soares de ontem. Estou escutando, pela terceira vez, Atrás Poeira, agradável cantiga composta por Ivan em parceria com Vítor Martins. Rafael Altério, de imensos ombros, faz a segunda voz. Ficou bonito, ficou bonito, repito para mim mesma.

Não poderia haver melhor acalento para essa desvontade de dormir.
Mas ainda pareceu pouco: fui lá fora outra vez, olhei de novo a lua e, ao retornar, deixei a porta no trinco. Agrada também essa sensação de não medo, de quietude.
Logo veio a compreensão de que a rua é que precisava dormir, descansar, não eu.

E um galo canta não sei em que quintal. Que bom que ainda há galos cantando nas noites desta cidade, que assim se mostra mais amorosa, mais minha, quase minha, como se Nova Palmeira tivesse se mudado pra cá, para o bairro onde moro, mesmo que por uma noite.



Daqui a pouco verei o mundo azulado. É mais ou menos assim às 4 da manhã: já sonhei e já vi. Vou ver de novo.

Em boa hora o sono não veio...

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O senhor pega?...

Vale a pena ser muito preciso na comunicação, dizer tudo de uma vez, sempre? Sim, a depender do caso. Se é com o médico que falamos, temos de ser precisos no relato dos sintomas, sob pena de um diagnóstico errado -se não houver necessidade de exames.
Mas em outros caos, vale a pena o inexato, pois ele pode gerar um equívoco benéfico por alguns instantes e a gente pode até se divertir!
Hoje cedo liguei para um consertador de cadeiras de escritório... Ele confirmou que poderia restaurar a minha estimada cadeira made in China (o gás acabou e o assento desce todo, quando quero dispor dela). Mas o endereço, ah, o endereço... Nem com GPS eu chegaria lá!

Perguntei com voz apreensiva:
-O senhor pega?...
-Não, pego não, de jeito nenhum, sou disso não, sou um profissional responsável! Pode confiar em mim!
-...  ...! ...?... Hã?..., então vou ter mesmo que levar a cadeira aí???...
-Ahhhhh, a cadeira????... Faço melhor: vou à sua casa, sou o único que faz isso.

E acertamos para amanhã.
Algo tolo, mas me fez rir muito -e continuo com vontade de rir mais...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Palpalá, Jujuy -nomes do mundo

indo ao final deste blog, certo dia, vi que ele havia sido acessado num lugar chamado Palpalá-Jujuy.
Onde será?, me perguntei. Não reconheci a bandeirinha do país; são tantas. E até acho que não quis reconhecer. Queria ficar imaginando Palpalá -sem país, sem mais qualquer referência. Palpalá, Jujuy. Palpalá, Jujuy... Mas existirá esse lugar? Não será apenas um nome? Se é um lugar, seus habitantes falarão palpalês?
Como somos impacientes com o mistério, e como a internet é uma (terrível) reveladora deles, fui saber: é um lugarejo da Argentina, e figura como opção turística...
Veio-me a curiosidade de buscar nomes incomuns de outros lugares, agora no Brasil:
Faxinal do Soturno, Estrela Velha e Não-Me-Toque (RS); Maravilha e Saudades (SC); Jardim do Mulato (PI); Luminárias (MG); Espera Feliz (ES); Feliz Deserto (AL); Poço do Lumiar (MA)...
E este aqui no RN: Caiçara do Rio dos Ventos...
São nomes do mundo. Nomes poéticos. Que o rio dos ventos da imaginação nunca cesse de correr nesse sentido.







sábado, 14 de janeiro de 2012

criadores de anedotas

 Criadores de anedotas, tenho-os em grande estima.Deviam ser receitados pelos médicos, contra tristeza, depressão e para prevenir ociosidades potencialmente maléficas. Fazer rir é, sobretudo, generosidade, e exige formidável talento, capacidade de concisão, de inventar chistes, de trabalhar na lógica do absurdo -ou em outra que não essa, tacanha, do cotidiano.
O mais admirável é que ninguém reivindica autoria. E por certo parte da graça se perderia se o contador de anedotas dissesse:  essa é minha! Mas não, elas parecem sopradas pelo vento. Talvez sejam o último resíduo de um tempo em que as palavras não eram propriedade de ninguém. Hoje, briga-se na justiça por uma frase que foi plagiada - e às vezes não foi, deu-se apenas uma coincidência (co-incidência: algo que incide junto com...). Mas os criadores de anedotas, penso, brigariam para não assumir autoria de anedota nenhuma.  O regozijo é justamente espalhar, doar de verdade. Quem mais faz isso, no mundo da criação cultural?
Ou anedota e piada não são cultura?... Cultura terapêutica inclusive, eu diria. E geradora de socialização das mais saudáveis. Pessoas que riem juntas esquecem "quem são", esquecem o tal do status, a condição de chefe de alguma coisa, são apenas pessoas que riem.
...

Será que esses criadores de alegria também criariam uma Academia Nacional de Anedotas?
Talvez só se fosse imaginária, como tema de piada. E piada a Academia Brasileira de Letras já fez, ao conceder a Ronaldinho Gaúcho a Medalha Machado de Assis... Ah, não é piada. Ronaldinho faz poemas com os pés. Gols, poemas, golemas...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

melancolia no Natal

Mãe na tempestade (óleo s/ tela).Nivaldete Ferreira


 "Aquele que tem todas as respostas por isso mesmo já perdeu a razão" (de um poema oriental).

não são poucas as pessoas que desabafam: -esse período do Natal me deixa em estado de melancolia... 
Por que será?... Todas as tentativas de resposta são em "talvez". Talvez porque, como disse J. L. Borges numa entrevista, "vamos vivendo e esperando que alguma coisa divina aconteça". Talvez no Natal isso seja mais agudo. Talvez esperemos um presente que, afinal, não existe nas lojas. Talvez o presente que gostaríamos de dar a nós mesmos, tirado das esquecidas prateleiras interiores, e que talvez fosse a libertação em relação ao poder que a cultura tem de se tornar orgânica e nos desmantelar por uns dias com esse indecifrável sentimento que, à falta de outro nome, chamamos de melancolia (os psicanalistas dirão "falta"). Talvez ainda porque, durante o ano, estoicamente reprimimos ou transcendemos insatisfações, pequenas tristezas, então o Natal serve de escoadouro para esses materiais não perecíveis e entulhados; estamos cansados e é fim de ano. Talvez porque a janela selada de algumas contradições se abra de repente e por ela vemos, por exemplo, que Jesus Cristo, descalço e roto, não seria aceito nos portões do Vaticano, mesmo na Noite de Natal. Talvez porque aquele "em que posso ajudar?" das moças bonitas das lojas soe como uma grande falsificação de um sentido de ajuda mais autêntico. Talvez porque cada vez mais nos deixamos estar como vassalos do Império das Coisas. Talvez porque a hipnose das 'realidades' - exercida o ano todo por falas, fatos, expectativas, 'valores' ...- seja  suspensa e, de repente,...
Talvez porque ficamos no palco, e não na plateia, como observadores.
Talvez porque...

Sei lá... Vou é tomar um copo d´água e dar comida pro gato, que mia ao pé de mim, sem qualquer melancolia. Manhosamente...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

paz, peace, pacem, la paix...



só as crianças e os bichos dormem assim... 

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(direitos de imagem reservados)
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