quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

melancolia no Natal

Mãe na tempestade (óleo s/ tela).Nivaldete Ferreira


 "Aquele que tem todas as respostas por isso mesmo já perdeu a razão" (de um poema oriental).

não são poucas as pessoas que desabafam: -esse período do Natal me deixa em estado de melancolia... 
Por que será?... Todas as tentativas de resposta são em "talvez". Talvez porque, como disse J. L. Borges numa entrevista, "vamos vivendo e esperando que alguma coisa divina aconteça". Talvez no Natal isso seja mais agudo. Talvez esperemos um presente que, afinal, não existe nas lojas. Talvez o presente que gostaríamos de dar a nós mesmos, tirado das esquecidas prateleiras interiores, e que talvez fosse a libertação em relação ao poder que a cultura tem de se tornar orgânica e nos desmantelar por uns dias com esse indecifrável sentimento que, à falta de outro nome, chamamos de melancolia (os psicanalistas dirão "falta"). Talvez ainda porque, durante o ano, estoicamente reprimimos ou transcendemos insatisfações, pequenas tristezas, então o Natal serve de escoadouro para esses materiais não perecíveis e entulhados; estamos cansados e é fim de ano. Talvez porque a janela selada de algumas contradições se abra de repente e por ela vemos, por exemplo, que Jesus Cristo, descalço e roto, não seria aceito nos portões do Vaticano, mesmo na Noite de Natal. Talvez porque aquele "em que posso ajudar?" das moças bonitas das lojas soe como uma grande falsificação de um sentido de ajuda mais autêntico. Talvez porque cada vez mais nos deixamos estar como vassalos do Império das Coisas. Talvez porque a hipnose das 'realidades' - exercida o ano todo por falas, fatos, expectativas, 'valores' ...- seja  suspensa e, de repente,...
Talvez porque ficamos no palco, e não na plateia, como observadores.
Talvez porque...

Sei lá... Vou é tomar um copo d´água e dar comida pro gato, que mia ao pé de mim, sem qualquer melancolia. Manhosamente...

5 comentários:

  1. Nivaldete:
    Essa é a verdadeira sensação que nos arrebata a todos no momento do Natal. Você a traduziu lindamente, no meio do palco, com muita harmonia, fazendo parte do verdadeiro Presépio.
    Beijos

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  2. É verdade, esperamos, no fim do ano, não ganhar um presente-coisa, mas aquele achado em nós mesmos, "na prateleira interior". E natal é uma contradição: fala-se mais em Noel das lojas, do que em Jesus da fé. Abç

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  3. coisa mais linda essa pintura, Niva... quero muito vê-la...

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    Respostas
    1. ...são meus outros sons/tons... Fico feliz porque gostou. Verás a pequena tela 'em pessoa'. abraços.

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