domingo, 22 de setembro de 2013

...por que um copo d´água é uma coisa bonita?

tinha que fazer uma tarefa escolar e andava pela casa espiando o que não via, esperando a revelação.
o que seria, para deixar a menina tão mudamente aflita?
passada mais ou menos uma hora, o som dos seus pés descalços indo e vindo dava notícia de que ela ainda não achara a resposta.
-queres que te ajude, filha?
-não, não precisa, eu acho sozinha.
-o quê?
-ainda não sei.
-mas disseste que acharias sozinha...
-pois é, não sei ainda o que é mas vou achar. tenho de levar a resposta amanhã. é a primeira aula.
-e ainda não queres ajuda?
-ninguém pode me ajudar. é coisa minha, só eu posso achar.

a mãe voltou a ver o documentário sobre Jean-Michel Basquiat, que trabalhava em dez, vinte quadros ao mesmo tempo e "estava sempre em estado de criação" -foi só o que ela guardou. sua vontade era resolver  a busca da pequena, que é das mães agir assim: tentar interromper a dor dos filhos, embora não se tratasse propriamente de uma dor, naquele caso. era só uma tarefa escolar, mas como aquilo estava consumindo as energias de Amanda! e se depois ela ficasse taciturna sempre que se deparasse com um desafio? não, Amanda, me deixa te ajudar, diga o que é essa busca, que dever é esse que te faz tão agoniadazinha?

aconteceu de a menina ir repentinamente à cozinha e deixar o caderno no sofá, perto da mãe, e a mãe depressa leu o que estava escrito lá, a tarefa: indicar algo que considera bonito e dizer o porquê.
ah, então era só isso! e ela achando difícil, com tanta coisa bonita para ser apontada: as flores, por exemplo. quando a menina retornou, a mãe puxou-a para si, observou sua blusinha azul molhada em uns três pontos.
-as flores, filha. elas são uma coisa bonita.
-já achei minha coisa bonita, mãe. um copo d´água!
-um copo d´água?... e por quê?
-ah, isso não sei responder. como vou saber por que um copo d´água é uma coisa bonita? mas é.
e foi para o quarto, satisfeita.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

e...

estava arrumada e de semblante descansado. entrou no café assim, pisando mansinho como se não quisesse machucar o chão, olhou todo o ambiente, depois se dirigiu ao balcão, pediu um café e não foi esperar sentada. ficou me olhando, em pé, querendo conversa. -aqui, eu disse enquanto lhe entregava a xícara. -tudo tão sem graça, Dino, que não vou colocar açúcar. -o que acontece? -literalmente nada.  vai tudo bem, nada me inquieta, um estranho até me sorriu hoje quando quase dávamos um encontrão numa calçada esburacada; alguém encontrou meus documentos e deixou no porta-cartas. -o ladrão sabe onde você mora, então. -pode ser, mas junto havia um documento com o endereço. -então vai tudo bem e não sei por que você acha isso sem graça. sem graça é problema. -mas preciso concluir meu romance. -se vai tudo bem, você pode se dedicar a isso. -o problema é esse, quando vai tudo bem não sinto vontade de escrever, não há falta a ser compensada, entende? -entendo não, eu faço café, e faço seja qual for o estado de espírito, às vezes tenho uma amargura igual à desse que você nem bebeu ainda, mas faço assim mesmo. nessas horas não gostaria, mas é disso que vivo e sabe que mais?, fazer café acaba me curando. não só fazer, mas oferecer. oferecer é curativo. -mas você vende. -vendo mas ofereço. há uma diferença entre só vender e apresentar o produto e vender e oferecer. oferecer é mais do que entregar. e o café talvez seja o objeto que mais se oferece, mesmo vendido. tem uma amorosidade, uma alma nisso que o dinheiro não empobrece. com a sua literatura por certo não é assim, você talvez não consiga oferecer, mesmo vendendo milhares de exemplares. você sequer sabe quem compra, quem lê, você não olha nos olhos de quem leva seus livros.  -ah, o café está esfriando, vou tomar e correr pra casa. já sei como vou terminar o romance.
-também sei: a personagem sem destino entra num café e...
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